Existe forma correta de lavar a vulva e a vagina?

Uma higiene inadequada e uso de produtos errados pode trazer muitos problemas para a região íntima. Infelizmente existem muitos mitos e crendices que propagam alguns hábitos de limpeza que não são saudáveis!

Para falarmos de higiene primeiro vamos revisar anatomia. A parte externa do genital feminino é chamada de vulva e a parte interna é a vagina. No final da vagina está o colo do útero, uma estrutura mais durinha que se insere neste local. O colo do útero possui um canal no seu interior que é fechado (o orifício é bem pequenino) e leva à cavidade do útero. É por esse canal do colo do útero que sai a menstruação para a vagina, mas quando inserimos algo na nossa vagina (um OB, os dedos ou água) essas coisas não progridem para o útero, elas ficam apenas no canal vaginal. 

Anatomia da vulva e dos órgãos genitais externos

***Curiosidade: 

Não tem como “perder algo na vagina”, queixa comum no pronto socorro de ginecologia. Quando você insere algo no canal vaginal e “não acha mais”, muitas pessoas acham que esse objeto pode ter ido parar no abdome, mas não existe nenhum outro lugar do que o canal vaginal para ele estar. O que pode acontecer é: como a vagina aumenta muito de tamanho na excitação sexual, em situações como a camisinha “se perder” na vagina, a recuperação dela pode ser mais difícil devido a esse momento de excitação, mas ela está sim no canal vaginal, é só ter paciência que você eventualmente consegue alcançar. Se mesmo assim não conseguir achar, procure um médico.

Vagina

A vagina é um órgão auto-limpante. 

Nós possuímos uma flora vaginal que em uma situação de normalidade é equilibrada. Existem lactobacilos, fungos e bactérias saudáveis que moram nas vaginas das mulheres e a presença desses micro-organismos em quantidades balanceadas é essencial para a saúde íntima. 

Quando desequilibramos a flora vaginal, corrimentos podem acontecer. Os dois corrimentos mais comuns das mulheres (a candidíase e a vaginose bacteriana) são resultados de um desbalanço da flora vaginal. A candidíase acontece quando um fungo muito comum, a cândida, que é normal na vagina das mulheres começa a se proliferar muito e a vaginose bacteriana é um desequilíbrio de algumas bactérias que aumentam de quantidade na vagina, particularmente uma chamada Gardnerella, muitas vezes às custas da diminuição dos lactobacilos.

Uma vagina úmida, com uma secreção fisiológica é o que é esperado em mulheres que estão na menacme, ou seja, no período entre a primeira menstruação e a menopausa. Ter sempre uma mancha amarelinha ou branca na calcinha, ou reparar uma secreção esbranquiçada na vagina é normal e saudável. Chamamos essa secreção de conteúdo vaginal normal. Quando esse conteúdo se altera, muda de cor, cheiro, ou a mulher apresenta sintomas associados como coceira, lesões, úlceras, etc, daí sim podemos estar frente à um corrimento, como os descritos acima.

Esse equilíbrio fino entre micro-organismos no canal vaginal pode ser afetado por produtos químicos ou lavagem direta e é por esse motivo que nunca devemos lavar, introduzir sabonete ou fazer duchas vaginais (jato de água dentro da vagina). A vagina não exige nenhum tipo de limpeza interna, ela se “auto limpa” e preserva seu equilíbrio sozinha, quanto menos introduzirmos produtos na vagina, melhor para a saúde íntima.

Vulva

Por ser um órgão externo, com glândulas sudoríparas e sebáceas, a vulva, ao contrário da vagina, necessita higienização frequente. Como a pele e a mucosa da vulva são muito sensíveis, produtos químicos ou sabonetes comuns podem lesar, irritar ou ressecar essa região, então sempre parta do princípio de que MENOS É MAIS.

Não é necessário o uso de sabonetes na vulva, apenas água é suficiente. Se você usar seus dedos para limpar em detalhes todas as dobrinhas do genital externo, sem deixar secreção acumulada, terá uma boa higiene vulvar. Vale lembrar que o ânus necessita sim de sabonete.

Pessoas que fazem questão do uso de sabonete devem procurar o sabonete mais natural e sem químicos possível, hoje em dias existem muitos produtos orgânicos, naturais, feito com ingredientes limpos e o menos de química possível. Dê preferencia para sabonetes líquidos. Se for usar sabonete restrinja o uso para uma vez ao dia pois o uso exagerado pode também ressecar a região. Sempre enxague muito bem para que não fique nenhum resquício de sabão. Sabonetes vendidos como especiais para a região íntima em farmácias não são as melhores opções pois não são os sabonetes mais naturais disponíveis, além de terem um custo mais elevado. Se você faz uso de um sabonete e não tem nenhum incomodo na vulva, não tem uma “vulva sensível”, está bem adaptada e não tem corrimentos frequentemente, pode manter seu uso seguindo as orientações acima.

Existem sabonetes que são especificamente bactericidas, indicados para lavagem de mãos por exemplo, esses são especialmente prejudiciais para a região íntima pois tem maior chance de desequilibrar a flora vaginal ao matar bactérias saudáveis. Evite.

Esses cuidados de higiene íntima podem ser a diferença entre uma sensação de conforto na vulva e vagina ou uma pele e mucosa ressecadas, que coçam, corrimentos frequentes e alergias. Se você tem uma vulva sensível é importante um maior cuidado com esses detalhes!

Para saber mais informações sobre higiene íntima assista ao vídeo abaixo em que eu dou outras dicas sobre esse tópico!

Dra Amanda Loretti estudou medicina na Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, e foi nessa mesma instituição que realizou suas residências médicas em Obstetrícia, Ginecologia e Medicina Fetal. Depois de formada ainda realizou especialização em Ginecologia Endócrina e hoje em dia atua principalmente em obstetrícia humanizada, ginecologia e sexualidade. Atende presencialmente em seu consultório em São Paulo, ou via telemedicina. 

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